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domingo, setembro 20, 2020
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Portela realiza sonho de homenagear brasilidade de Clara Nunes

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Os 95 anos da Escola de Samba Portela colecionam personalidades que marcaram não só a história da escola, mas também a cultura brasileira. Nesse hall, que tem nomes como Monarco e Paulinho da Viola, uma das maiores estrelas será a grande homenageada pelo enredo deste ano: Clara Nunes, que terá as diversas referências de sua brasilidade desdobradas pela carnavalesca Rosa Magalhães.

Integrante da comissão de carnaval e presidente do Conselho Deliberativo da escola, Fábio Pavão conta que a emoção desse tributo vem arrancando lágrimas dos componentes da Portela.

“É o enredo que o portelense sempre quis. Falar de Clara Nunes é um sonho antigo da Portela. Em outros carnavais, Clara Nunes esteve no enredo, mas não era o personagem central”.

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A criação no interior de Minas Gerais, a educação católica, o mergulho nas religiões africanas e o encontro com o subúrbio carioca na azul e branca de Madureira serão contatos pela escola no enredo “Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá”.

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Sem a intenção de contar uma biografia tradicional, o desfile parte do último trabalho da cantora, o álbum Nação, em que Clara Nunes circula de forma eclética pela produção musical negra no Brasil. Essa busca pela brasilidade, explica Pavão, a cantora tem em comum com os modernistas, que em Tarsila do Amaral encontraram o “Carnaval em Madureira”, quadro icônico da pintora que passará pela Marquês de Sapucaí em forma de alegoria.

Assim como Clara Nunes, Tarsila se encantou com a folia no subúrbio ao se deparar com a irreverência de um comerciante carioca que mandou enfeitar o coreto de uma praça como se fosse a Torre Eiffel. Em volta do monumento, ele ainda montou uma engenhoca que fazia rodar um dirigível.

Enredo

“A gente quer mostrar o Brasil, como o povo tem importância para a definição dessa brasilidade e para o repertório da Clara Nunes”, diz Pavão, que conta que o enredo trará a formação católica que Clara Nunes recebeu dos pais, que serão representados na avenida pela atriz Glória Pires e pelo compositor Orlando Morais em um carro alegórico que faz referência ao estilo barroco das igrejas mineiras.

Do catolicismo, a escola vai partir para a fé nos orixás de matriz africana, que marcou a identidade visual e a forma de Clara Nunes se apresentar. Mulher, negra, de matriz africana e nascida no interior, Clara Nunes será revivida também em sua mensagem em prol da diversidade. “A Clara mostra a importância da tolerância, de se respeitar o próximo e de se respeitar as religiões de matriz africana. Foi um recado que ela passou em vida e que a Portela vai passar no carnaval”.

Nos 13 anos que passou na Portela, Clara Nunes foi intérprete, desfilou e fez história na comunidade. Grandes carnavais serão resgatados pelo desfile, como Ilu Ayê, de 1972, e A Ressurreição das Coroas (1983), o último de que Clara Nunes participou, meses antes de sua morte, em 2 de abril daquele ano.

Camarote na Sapucaí

A Portela vai desfilar com cinco carros alegóricos, 3,4 mil componentes e 28 alas. Fora da pista, esse ano a escola inaugura uma novidade, o Camarote da Portela, que promete recriar a atmosfera da quadra em plena Sapucaí.

“Dentro da ideia de ampliar as fontes de receita, estamos progressivamente trabalhando a nossa marca, buscando parceiros, e o camarote é mais um exemplo disso”, disse Pavão. “Terá o clima da nossa feijoada, com a nossa velha guarda. É como se estivesse assistindo ao desfile de dentro da quadra”.

Entre as parcerias, está uma que promete agregar ainda mais elegância ao desfile da azul e branca. A carnavalesca Rosa Magalhães assina a fantasia de uma das alas ao lado do estilista francês Jean Paul Gaulthier, que esteve no Rio de Janeiro em outubro para acertar os detalhes do traje, que é mantido em sigilo. Na viagem, o estilista não perdeu a oportunidade de participar de uma feijoada com a velha guarda.

Nos bastidores do desfile, que promete emocionar os componentes, não faltam histórias de devoção a Clara Nunes. O figurinista Luciano Costa, de 63 anos, lembra que esteve no último show da cantora na quadra da Portela, há mais de 30 anos.

“O clima aqui no barracão é de muita emoção. As pessoas vêm nos visitar e é uma loucura, elas se arrepiam. Ficam enlouquecidas e sentem a Clara presente”.

A estrada de Luciano no carnaval começou há 42 anos, quando ele trabalhou com Joãozinho Trinta. De lá para cá, ele já foi carnavalesco e fez parcerias com outros nomes importantes. Neste ano, seu desafio é estar à altura de duas divas do carnaval.

“Clara Nunes sendo homenageada pela Portela com Rosa Magalhães. É muito séria essa responsabilidade. São duas mulheres poderosíssimas”, afirma o carnavalesco.


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