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segunda-feira, outubro 26, 2020
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Reabertura em SP é mandar “população para abatedouro”, alerta especialista em covid

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A cidade de São Paulo se encontra na fase laranja, a segunda mais crítica de uma escala de cinco níveis criada pelo governo estadual para definir a situação da pandemia em cada município e as regras de flexibilização das medidas de isolamento social.

Nessa fase, é permitida a abertura restrita de atividades imobiliárias, comércio, shoppings, concessionárias e escritórios.

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“Nós estamos mandando a população para o abatedouro. A cidade de São Paulo abrindo [o comércio] hoje, com uma taxa de óbitos inclusive crescendo, mostra um cinismo ímpar tanto do governador do Estado de São Paulo e agora com o prefeito da cidade de São Paulo”, afirma o professor Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do grupo Covid-19 Brasil. 

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Outras cidades, como os municípios da Grande São Paulo e da Baixada Santista, continuam na fase vermelha e, portanto, estão proibidas de retomar quaisquer atividades econômicas, com exceção de construção civil e indústria não essencial. 

Segundo o prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), estão autorizados a voltar a funcionar a partir desta quarta-feira (10) o comércio de rua, entre às 11h e 15h, e as imobiliárias, por quatro horas.

Todos os 57 shoppings no município, no entanto, ainda devem receber autorização da Prefeitura para reabrir a partir desta quinta-feira (11), que depende da análise de protocolos sanitários. 

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O professor Domingos Alves lembra que Covas anunciou, em abril, por meio do Plano Funerário Emergencial de São Paulo, a abertura de 13 mil novas valas, contratação de 220 coveiros, aquisição de 32 carros funerários e câmaras refrigeradas que podem armazenar temporariamente até mil corpos por dia. Para o pesquisador, parte desse cenário ainda é esperado.

Argumentos de Doria e Covas

A reabertura gradual das atividades já estava prevista desde o dia 28 de maio, a começar no dia 1º de junho, quando o governador João Doria (PSDB) anunciou o Plano São Paulo, por meio do Decreto nº 64.994.

Na ocasião, Covid-19 Brasil e Ação Covid-19 emitiram uma nota técnica criticando a iniciativa de Doria.

“Caso as medidas estipuladas pelo governo sejam efetivadas, elas podem levar a perdas de vidas. A sociedade paulista precisa trabalhar em conjunto para fazer com que a curva de transmissão seja drasticamente reduzida. Isso não será atingido abrindo o comércio das cidades. Ao contrário, é preciso intensificar o isolamento social”.

Ainda assim, segundo o professor da USP, que faz parte de um dos grupos que escreveram a nota técnica, dois argumentos foram apresentados para embasar o Plano São Paulo: o achatamento da curva do número de casos e óbitos e a diminuição da contribuição relativa do Estado de São Paulo para a epidemia brasileira. 

Quanto ao primeiro argumento, Alves afirma que “é contraditório, inclusive, com o discurso que Doria teve uma semana antes do anúncio do Plano São Paulo dizendo que se as coisas não fossem revertidas ele ia adotar o lockdown.

“Quando se olha a curva que ele apresenta, tanto a curva do Brasil quanto a de São Paulo estão crescendo em relação a outros países. Não tem nenhuma diminuição”, afirma Alves.

Na mesma linha, o pesquisador defende que o segundo argumento “não faz sentido”, uma vez que a contribuição de cada estado no acúmulo de casos e óbitos do país é relativa, já que depende do avanço da contribuição de outros estados. 

“É muito triste, inclusive, mais triste ainda é que o governador, como bom marqueteiro que é, coloca no painel da apresentação do plano que todas as decisões dele estão baseadas em evidências científicas.”

No município, Covas argumenta que a taxa de ocupação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) está diminuindo e que a curva da epidemia está se aproximando de um platô, como afirmou Carlos Carvalho, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus no Estado de São Paulo, durante coletiva de imprensa. 

A curva, no entanto, do número de casos confirmados e mortes continua ascendente, nas duas esferas. Ainda assim, de fato, a taxa de ocupação de UTI diminuiu, na segunda-feira (8), de 73,8% para 67,5% na capital e de 88,1% para 75,5% em todo o Estado.

Isso pode ser explicado pelo aumento em 30% na capacidade de atendimento, na região metropolitana, além da entrega de 830 respiradores que deve ocorrer até o final desta semana. Para Alves, porém, trata-se de “uma maquiagem de dados”. “Se amanhã eu tiver 900 pessoas necessitando de leito, esses leitos estão prontos?”, questiona o docente. 

“Pelo critério do Plano São Paulo, até pouco tempo São Paulo não era elegível para estar fora da zona vermelha. Então, de repente, em um dia, se criaram mais vagas. O que eu gostaria de saber é se essas vagas são de leitos que estão realmente disponíveis. Porque isso aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, o prefeito lá colocou vagas disponíveis, mas que na prática não existiam, porque hora não estava completo o leito, hora não tinha respirador ou não tinha equipe contratada.”

De acordo com o plano, um município permanece na fase vermelha se apresentar a taxa de ocupação dos leitos de UTI acima de 80%. Se ficar entre essa porcentagem e 70%, desce para a fase laranja, ou se apresentar a diminuição de novos casos e óbitos. Em São Paulo, defende Alves, somente o primeiro critério foi atendido e, ainda assim, ele desconfia da mudança abrupta da taxa de ocupação de leitos.




Relação entre os requisitos para se passar de uma fase para outra / Governo do Estado de São Paulo

“Precisa atender a um dos requisitos, e é isso o que a grande maioria dos prefeitos estão fazendo. Por exemplo, Guarulhos tentou, e até onde eu sei não conseguiu, fazer isso com 100% da taxa de ocupação dos leitos públicos. Ele foi atrás de leitos privados que garantisse a ele abaixar a taxa de ocupação para estar dentro do critério.” 

Outro questionamento levantamento por Alves é a proporção dessa taxa de ocupação de leitos de UTI referentes ao Sistema Único de Saúde (SUS), para a situação pode estar confortável na rede particular.

No entanto, são nos bairros periféricos que a doença, nesse momento, avança com mais expressividade – cerca de três vezes mais do que em bairros ricos, segundo o pesquisador. E são, justamente, nesses lugares onde os hospitais do SUS devem ficar sobrecarregados. “O rico pode tanto procurar o leito público quanto o privado, mas o pobre não.”

Quarentena até dia 28

O governador de São Paulo João Doria (PSDB) anunciou, nesta quarta-feira (10), que a quarentena no Estado segue até o dia 28 de junho. Isso não interfere, no entanto, na reabertura das atividades econômicas, que ocorrerá durante as medidas de isolamento social. 

De acordo com o governo estadual, no dia 8 de junho, a taxa de isolamento foi de 47%. Conforme dados do Índice de Isolamento Social desenvolvido pela Inloco, que auxilia autoridades a mapear o distanciamento, a taxa foi de 38,4% no mesmo dia.

Para Alves, em comparação à média das taxas anteriores ao dia 17 de março, quando se iniciou a quarentena no Estado, São Paulo não está mais em quarentena. “Nós chegamos na mesma faixa que se observava antes de qualquer medida de restrição.”

Edição: Leandro Melito


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