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sábado, setembro 19, 2020
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“Bacurau” em Cannes: um respiro para o cinema brasileiro na era Bolsonaro

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Por Louis GENOT – Três anos depois de seu aclamado “Aquarius”, o diretor Kleber Mendonça Filho volta a Cannes com “Bacurau”, determinado a oxigenar o cinema brasileiro, que atravessa tempos turbulentos no governo de Jair Bolsonaro. 

“Temos dois sentimentos em paralelo: por um lado de satisfação pessoal e artística, e por outro um sentimento de pena, porque o cinema brasileiro vinha em uma curva ascendente e agora enfrenta uma crise”, disse o cineasta de 51 anos em entrevista à AFP. 

Em 2016, a exibição em Cannes de seu longa-metragem “Aquarius” – indicado para Palma de Ouro – chamou a atenção do mundo inteiro quando o elenco posou no tapete vermelho mostrando cartazes que denunciavam um “golpe” contra a presidente Dilma Rousseff, que sofre impeachment naquele ano. 

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Sua segunda participação no festival de cinema mais famoso do planeta é “totalmente diferente”, diz o diretor pernambucano.

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“O que acontece hoje com Bolsonaro tem uma ampla cobertura da imprensa internacional. Em maio de 2016, tínhamos a impressão de que a imprensa internacional não entendia realmente o que estava acontecendo no Brasil”, afirma.

“Não sou político, sou um cineasta. Fizemos o protesto naquela época porque simplesmente fazia sentido, inclusive não foi nada planejado. Mas a gente realmente está querendo exibir Bacurau. Exibir em Cannes um filme foda sobre o Brasil vai ser nosso tipo de protesto”. 

– “Marxismo cultural” –

“Bacurau” é o terceiro longa-metragem de Kléber Mendonça, mas o primeiro que filma fora de sua cidade natal, Recife. O cenário escolhido dessa vez é o semi-árido do nordeste brasileiro, a região do Sertão do Seridó, na divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte. 

Mendonça codirige o filme com Juliano Dornelles, parceiro em outros projetos na direção artística. No elenco ele conta novamente com Sonia Braga, protagonista de “Aquarius”. 

O filme conta a história de uma pequena cidade do interior cuja tranquilidade se vê perturbada após a morte de uma de suas habitantes mais velhas, Carmelita, aos 94 anos. 

“Fazer filmes que tratam sobre dramas humanos e sobre pessoas que passam pro todo tipo de dificuldades pode ser visto como um ato de resistência (…) mas de nenhuma maneira quero me apresentar sob o rótulo de ‘cineasta da resistência'”, diz o diretor. 

“Sou um diretor brasileiro, que vive em um momento em que a sociedade brasileira sofre, e é aí que as histórias surgem”, acrescenta. 

O setor artístico enfrentam turbulências desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o poder em janeiro com a promessa de erradicar o “marxismo cultural” do Brasil. 

O Ministério da Cultura foi extinguido e suas responsabilidades transferidas para uma secretaria dentro do Ministério da Cidadania, que reúne diversas áreas como esporte e assistência social.

“O marxismo cultural não existe, o que existe é o terreno livre da criação artística. Nenhum governo pode tratar a expressão artística com ideias pré-concebidas, com ideologias”, diz Luiz Carlos Barreto, produtor de vasta experiência no cinema brasileiro. 

– “Medo dos artistas” –

No primeiro trimestre do ano, durante os primeiros meses do mandato de Bolsonaro, o financiamento de projetos audiovisuais por empresas públicas foi de mais de um milhão de reais. 

Nesse ritmo, o financiamento total de 2019 será reduzido em mais da metade em comparação a 2018. Há dez anos, quando o país vivia um boom econômico, os fundos para o setor superaram os 34 milhões de reais (2009). 

Além disso, Bolsonaro anunciou sua intenção de restringir o alcance da Lei Rouanet. 

O cinema brasileiro também é ameaçado pela crise da Agência Nacional de Cinema (Ancine), que está na mira do Tribunal de Contas da União (TCU) e suspendeu temporariamente a distribuição de recursos desde março. 

Para Kleber Mendonça, essa é uma crise “criada artificialmente para acabar com o cinema brasileiro”. 

“O que me deixou mais impressionado é um aparente medo, ou raiva do artista. Não entendo isso, porque somos todos brasileiros, nós também amamos nosso país”, diz. 

“Este filme eu já vi algumas vezes, essas turbulências, quando o cinema brasileiro se encontra em altura estabilizada, sereno, quando está muito bem, surgem sempre turbulências que o desestabilizam.”, lamenta Luiz Carlos Barreto.

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