A primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de transmissão da Faixa Presidencial, no Palácio do Planalto.

Contrariando previsões baseadas nos costumes de sua orientação religiosa, a brasiliense Michelle Bolsonaro, 38, não aderiu ao look virginal na posse do marido, o presidente empossado Jair Bolsonaro (PSL), preferindo acenar para as câmeras com um contundente e justíssimo tomara-que-caia.


Acetinado e com decote canoa, corte popularizado nesta década pelo armário da realeza britânica, o vestido fez Michelle subir a rampa do Planalto como a primeira-dama mais sexy desde a redemocratização.
De quebra, ela ainda jogou para o alto a imagem recatada vendida por sua antecessora, Marcela Temer. A agora ex-primeira-dama repetiu o vestido Luisa Farani que usou no desfile do 7 de setembro, em 2017, e roubou de Michelle, pelo menos por alguns minutos, os holofotes da internet.


Se a única lembrança da gestão passada é o cabelo loiro finalizado com pontas onduladas, não se pode dizer o mesmo do rosa quartzo, meio bege, que tingiu o look da posse em Brasília.


O tom é um grau mais iluminado do que o rosa chá do conjunto rendado da ex-presidente Dilma Rousseff na posse de seu segundo mandato, em 2015. A cor, vale lembrar, costuma ser usada por noivas que casam pela segunda vez, detalhe que faz sentido pela etiqueta escolhida por Michelle.


O look é assinado pela estilista paulistana Marie Lafayette, dona de ateliê no Rio e em São Paulo que intitula de “haute couture”, ou alta-costura, em francês, e é especializado em vestidos de noiva e festa.
Lafayette desenhou o vestido da primeira-dama e disse ter se inspirado na ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy e na princesa de Mônaco Grace Kelly. Ela afirma ser tetraneta do militar francês Marquês de Lafayette (1757-1834), que lutou na Revolução Francesa e na Independência Americana.


A escolha de Michelle relembra um padrão das primeiras-damas brasileiras nos tempos da ditadura militar, quando era comum contratarem estilistas particulares, de roupa sob medida, para reproduzir modelos da Europa e dos Estados Unidos. 


No segundo look, um longo preto de rendas usado em um coquetel no Itamaraty, ela despiu a imagem sexy e assumiu um tipo fatal, tipo Mortícia Adams, com corte justo e cauda aberta.


Parece haver um outro motivo, esse mais engenhoso, na ousadia de uma primeira-dama que só usava terninhos claros em encontros midiáticos com o povo. Michelle parece ter aceitado o cargo, que Melania Trump tenta cumprir nos Estados Unidos, de ser um equalizador da imagem conservadora do marido.

A primeira-dama Michelle Bolsonaro, o presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente, general Hamilton Mourão, durante cerimônia de transmissão da Faixa Presidencial, no Palácio do Planalto.


Espertamente, ela adicionou  à posse beleza, modernidade e viés inclusivo –o discurso em Libras foi um acerto marqueteiro–, adjetivos pouco ou nada vinculados à imagem rígida do marido.


Jair Bolsonaro, aliás, deixou para a mulher o fator surpresa da festa. A gravata que manteve em segredo nada dizia além de que provavelmente não foi escolhida por ele, cujo pescoço costuma estar enrolado em nós gordos de gravatas largas.

A primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de transmissão da Faixa Presidencial, no Palácio do Planalto.


Azul royal, o acessório combinava com o tom marinho do terno de tecido Loro Piana confeccionado pelo desconhecido alfaiate Santino Gonçalves, de Duque de Caxias (RJ), que o presenteou com o conjunto de duas peças.


Houve uma tentativa de modernizar a imagem do militar reformado, ajustando braços e cintura, e costurando detalhes verde e amarelo nas barras do paletó. Não contavam, porém, com o grosso colete à prova de balas que Bolsonaro parecia estar usando tamanho era o aperto visto nos braços, ombros e barriga.

A primeira-dama Michelle Bolsonaro, o presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente, general Hamilton Mourão, durante cerimônia de transmissão da Faixa Presidencial, no Palácio do Planalto.


Se Bolsonaro parecia desajustado, os congressistas que acompanharam o discurso no Senado queriam se alinhar às ideias do novo mandatário. Um mar azulado como o costume dado de presente por Santino, que também cortou o terno do filho mais velho do presidente, o deputado Flávio Bolsonaro (PSL), coloriu a plateia de apoiadores. 


Coloriu também a vice primeira-dama, Paula Mourão, que usou um vestido rendado no tom real da gravata do presidente. 


A reverência “royal” não seria possível se tantos detalhes sobre o armário da família não tivessem sido vazados muito antes da posse, via redes sociais. Incomum, a divulgação soa quase como um daqueles comunicados de coroação, aqui, de uma família que já é vista como uma espécie de nova realeza brasileira.