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quinta-feira, 25 de abril de 2019 11:1042
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Após derrota nas urnas, centro busca reinvenção e fala em fazer autocrítica

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Para onde vai o centro depois que Jair Bolsonaro (PSL) derrotou Fernando Haddad (PT) e as urnas escancararam a rejeição do eleitor a partidos que fazem um discurso de moderação?

Nem os próprios partidos que ocupam o largo canal entre os candidatos do segundo turno sabem bem para onde vão. Mas o cenário pós-eleições, com o avanço da direita no plano federal, nos governos estaduais e no Legislativo, indica a necessidade de uma reinvenção para ontem, na opinião de lideranças políticas.

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Siglas como PSDB, MDB, PPS, PSB e Rede se debruçam sobre as causas do fracasso e discutem como se manter relevantes e qual papel exercer em relação ao novo governo.

“Há mais de um ano eu defendo que o PSDB faça uma reformulação, uma autocrítica”, diz o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Ex-presidente nacional do partido, ele disse em setembro que a legenda cometeu “erros memoráveis”. Um deles: entrar no governo Michel Temer (MDB).

O futuro dos tucanos está diretamente ligado à ascensão de João Doria. Aliado de Bolsonaro, o governador eleito de São Paulo se movimenta para empurrar a legenda rumo à direita. Fala também em tirar da sigla a pecha de que fica no muro e não toma posição.

Tasso, que insiste na importância de o PSDB “reconhecer os erros”, vê também a chance de que siglas de centro se unam. O abraço dos afogados, se acontecer mesmo, será algo inédito nos anos recentes.

Ao longo da campanha, iniciativas nesse sentido falharam. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tentou articular um bloco para aglutinar candidaturas e fazer frente aos extremos. Como se sabe, não obteve sucesso.
“Acho que pode vir uma coesão do centro, mas vai depender de como será o relacionamento político e quais serão as primeiras atitudes de Bolsonaro. Se vai entrar radicalizando, se vai moderar”, diz Tasso.

A expressão “oposição democrática” tem sido usada à exaustão por caciques partidários para descrever a relação com o futuro governo. A ordem é agir com responsabilidade, sem fazer um contraponto sistemático ao Planalto.
Blocos nessa linha estão se desenhando no Congresso, com partidos como PDT, Rede, PPS, PV, PSB e PC do B.

Membros poderiam votar com o novo governo em pautas como reformas econômicas, mas buscariam marcar posição em temas como direitos humanos e respeito às liberdades.

A intenção é constituir uma oposição sem o PT, ideia defendida pelo ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT) e que conta com a adesão de siglas que querem abandonar o guarda-chuva do partido de Haddad.

O MDB de Temer planeja também fazer do Congresso seu foco de resistência. A eleição de um nome do partido, como Renan Calheiros (AL), para a presidência do Senado pode garantir algum protagonismo no governo Bolsonaro.

Presidente nacional do PDT, Carlos Lupi diz que o papel de terceira via assumido por Ciro, o terceiro colocado da eleição, continuará sendo necessário. “Tivemos a onda que elegeu Lula e agora a que deu vitória a Bolsonaro. É cíclico. Daqui a pouco vira de novo.”

Lupi compartilha do entendimento de que o candidato do PSL deu um baile na velha política ao estabelecer comunicação direta com os eleitores. “Deveríamos ter trabalhado com mais eficácia a rede social. Isso o Bolsonaro conseguiu”, constata o líder do PDT.

“O ciclo de governos mais progressistas se encerrou com uma crise profunda das instituições e partidos”, diz o presidente nacional do PPS, Roberto Freire. “A política tradicional foi derrotada”, segue ele, que tem mandatos há 44 anos, é suplente de deputado federal e não conseguiu uma vaga na próxima legislatura.

Para se manter no time das legendas “que serão ouvidas e terão espaço lá no futuro”, nas palavras de Freire, o PPS aposta na refundação do partido, processo que já estava em curso e agora se mostrou urgente.

A metamorfose, que inclui troca de nome (“Movimento” é uma opção), se dará com a adesão de membros do Agora!, do Acredito e do Livres, grupos que erguem a bandeira da renovação política, e com a possível fusão com a Rede.

A legenda da ex-senadora Marina Silva está com a sobrevivência ameaçada porque elegeu só uma deputada federal e, com isso, não superou a cláusula de barreira. A consequência é a restrição no acesso a recursos do fundo partidário e ao tempo de televisão.

Embora ainda falte a palavra final, tudo se encaminha para a união dos dois partidos. O molde também é incerto, já que, pela lei, só siglas com no mínimo cinco anos de registro podem se fundir. Oficializada em 2015, a Rede tentará na Justiça derrubar a regra.

“O PPS não está discutindo mudança por deleite de mudar, mas porque é necessário”, afirma Freire. A expectativa é que a aliança com organizações de oxigenação da política ajude a reformular os quadros, estabelecer nova ponte com a população e ter conexão maior com redes sociais.

“A sociedade brasileira não está majoritariamente nos extremos”, analisa Freire. “No primeiro turno, um movimento anti-PT deu impulso a Bolsonaro e, no segundo, um grande grupo votou em Haddad para ser anti-Bolsonaro.”

Para o cientista político José Álvaro Moisés, a existência de uma força de centro é estratégica para a sobrevivência da democracia brasileira. Mas sua chance de desaparecimento é real, adverte o pesquisador, caso lideranças não tenham capacidade de ouvir as bases e apresentar soluções para problemas na economia e na segurança pública.

“Uma condição fundamental é que as elites políticas e os partidos que se envolveram em corrupção venham a público assumir os erros e pedir desculpas”, afirma Moisés, professor aposentado da USP.

Ele diz que, sem uma reinvenção, o bloco de centro que historicamente tem uma posição mais apaziguadora corre o sério risco de ser superado pelas novas forças políticas.

“Não foi capaz de entender a natureza da crise e deixou um espaço que foi aproveitado por Bolsonaro e seus apoiadores. Tudo bem que foi uma campanha atípica; não era simples para os líderes de centro apresentar uma proposta, mas não era impossível.”

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