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domingo, outubro 25, 2020
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Roraima: abandonados pelo governo, indígenas decidem construir sua própria escola

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Você consegue imaginar uma escola sem paredes? Ignorados pelo governo estadual de Antonio Denaruim (sem partido) , essa é a realidade vivida por muitos de estudantes em Roraima. Das 23 escolas elevadas e credenciadas pelo Estado na Terra Indígena São Marcos (região norte), 14 atendem estudantes do ensino médio e, estas, apenas cinco têm prédios construídos.

Uma das escolas “sem paredes”, na comunidade de Maruwai, município de Pacaraima , na Terra Indígena de São Marcos, conta com 82 crianças e adolescentes. A Escola Estadual Indígena José Joaquim fica localizada a 96 km da capital Boa Vista e também a 134 km de Pacaraima, cidade que faz fronteira entre Brasil e Venezuela .

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Fundada em 1211, bol a escola completa o nome de Elias Fraxe e atendia 19 alunos entre a 1ª e a 4ª séries. Em 2002, a instituição passou a se chamar Escola Estadual Indígena José Joaquim , em homenagem a um dos fundadores da comunidade. Atualmente, atende alunos do ensino fundamental ao médio.

Até hoje, porém, não uma estrutura fixa para a instituição de ensino. A comunidade conta com barracões construídos pelos moradores e tem sete salas de aulas improvisadas. A estrutura não tem paredes, a dificuldade de concentração dos estudantes e impedir as aulas durante os períodos de chuva.

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Área do posto de saúde que serve como sala de aula improvisada / Jefferson Ferreira

O único prédio com paredes é o posto de saúde, que também é usado como sala de aula improvisada pelos moradores da comunidade. Um laboratório de informática com dez computadores com acesso à internet também está, teoricamente, à disposição dos estudantes. Mas pela falta de estrutura adequada não é possível ter um bom atendimento aos alunos.

A cozinha da comunidade também foi adaptada para que pudesse ser usada como sala de aula. Há cadeiras, mas não há suporte ou mesas para que todos os estudantes apoiem cadernos e livros.



Cozinha da comunidade virou sala de aula improvisada / Jefferson Ferreira

Localizados no centro da comunidade, os barracões de telhado de palha ficam expostos durante todo o dia a barulhos do cotidiano, como máquinas, motosserras, roçadeiras e tratores.

Além das chuvas e do barulho externo, os educandos também entregue com as pragas que, ano a ano, atingem a comunidade. Pium, carapanã e maruim são comuns na região.

A falta de estrutura torna o trabalho inviável para os professores e atrapalha o aprendizado dos 34 alunos do ensino fundamental I , 34 fazer II e fundamental 10 do ensino médio. As turmas são multisseriadas, ou seja, há apenas uma professora para alunos de diversas séries.



Sala de aula de estudantes adolescentes da comunidade / Jefferson Ferreira

Além da falta de estrutura física, hoje a escola tem escassez de materiais e livros didáticos publicados para todas as séries; não há funcionários na secretaria nem merenda escolar todo mês.

Há mais de 20 anos, os moradores cobram o básico do governo: uma escola como qualquer outra.

“Esperamos que a nossa solicitação e o nosso sonho de muito tempo venha se concretizar, com a tão esperada construção do prédio escolar completo com sete salas de aulas, diretoria, secretaria, copa, cozinha, biblioteca, sala de leitura, laboratório de informática com computadores, internet, sala de professores e miniauditório para reuniões. Que tenhamos materiais didáticos, materiais escolares, materiais permanentes, livros didáticos , merenda escolar e transporte escolar. Também é necessário ter pessoal de apoio, como merendeira, zelador e secretário. Enfim, uma escola toda climatizada e com banheiros “, diz um relatório sobre a comunidade, elaborado pelos moradores.

Jefferson Ferreira, da etnia Makuxi, é presidente da Associação dos Povos Indígenas de Roraima (APIRR) . Professor e estudante do curso de Licenciatura Intercultural pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) , ele explica que a comunidade se sente abandonada pelos governos municipal, estadual e federal.

Sobre o governo estadual, conta que apenas os professores são disponibilizados pelo Estado, ainda assim de forma precária. “O que ele tem nos dado aqui é o apoio com recursos humanos. São profissionais com contrato temporário. Apenas três professores efetivos. Todo ano tem seleção e as aulas sempre partidas atrasadas ”, diz Ferreira.

Sem a escola,

nós estamos abandonados

Jeans da Silva, da etnia Makuxi, tem 40 anos e também é morador da comunidade Maruwai. Pai de crianças e adolescentes, ele sonha com uma escola para que seus filhos tenham uma formação de qualidade. “A escola é importante para as crianças porque é da escola que temos os nossos futuros, da escola que vai sair doutores, enfermeiros, médicos, advogados, professores, grandes lideranças e outros profissionais. Tudo passa pela escola. Sem a escola, nós estamos abandonados. Hoje a construção da escola é de suma importância para nossa comunidade “, explica.



Sala de aula, diretoria, secretaria e biblioteca improvisados ​​pelos moradores da comunidade / Jefferson Ferreira

A questão dos profissionais da educação também é marginalizada pelo governo estadual, segundo Jeans: “Não há espaços para os professores desenvolverem suas atividades pedagógicas e educacionais. Não temos apoio de nada, temos apenas os professores do quadro temporário e isso é uma grande dificuldade para desenvolvermos como atividades todos os anos. Não tem concurso, o último aconteceu aconteceu em 1987. Teve outro em 2008, mas não foi específico para os povos indígenas “.

Não há espaço para os professores desenvolverem suas atividades

“Dessa maneira não vamos avançar com a educação, não vamos ter educação de qualidade que nós tanto esperamos e sonhamos. Atualmente a nossa escola esta abandonada pelo Estado, pelo Município e pela União . Não temos materiais materiais didáticos, não temos materiais de secretaria, não temos espaços físicos. As escolas das comunidades são construídas com cobertura de palha. O Malocão feito pela comunidade para fazer suas reuniões e aproveitado como sala de aula “, detalha Jeans.

A construção da nova escola

Sem ter as demandas atendidas pelo governo estadual, os moradores decidiram construir uma escola por conta própria. Todas as 40 famílias que moram na comunidade estão participando da obra, que começou há 6 meses. A meta é que o prédio está até o final de 2019.



Mães e pais reunidos no prédio que estão construindo para a nova escola, agora com parede e telhado resistentes / Jefferson Ferreira

Ivanete Silva dos Santos, também da etnia Makuxi, é mãe de uma adolescente de 15 anos e está diretamente envolvida na contras trução da escola.

Cansada de ver os cadernos do filho molharem durante o período de chuvas, se juntou aos demais moradores para erguer a escola nunca construída pelo governo estadual.

Valdinei da Silva Oliveira tem 47 anos e é da etnia Wapichana. Ele explica que só não está todos os dias trabalhando na construção da escola porque não é sempre que tem material para a construção. O telhado está inacabado por falta de telhas para a cobertura. A falta de cimento, portas e janelas também está atrasando a entrega do prédio.

Temos profissionais formados e esperamos o público

“Sou pai, construtor e professor daqui. Essa escola foi fundada em 1987 e até hoje não conhecida nenhuma construção que é da competência do governo. Hoje já temos profissionais formados e estamos esperando o concurso público “, explica Valdinei.



Construção da escola deve acabar no final de 2008. Enquanto isso, as aulas são dadas no malocão / Jefferson Ferreira

Falta de estradas e pontes deixam os moradores ilhados

As estradas e pontes que dão acesso à comunidade estão em condições péssimas, o que atrapalha a chegada da merenda escolar e dos materiais de construção para a escola, além de dificultar a vida dos professores, que precisam viajar 134 km até Boa Vista para receber o salário. Com a precariedade, o transporte escolar tem muita dificuldade de acesso na comunidade e a demora na volta dos professores para o território acaba atrasando a continuidade das aulas.

A comunidade também se preocupa com os professores que não tem qualquer segurança para buscar os salários na capital do estado.

O governo nunca fez um levantamento das nossas demandas e produção nas comunidades

“O governo diz que não constrói estradas e pontes porque os indígenas não tem produtos agrícolas para o escoamento. Mas isso não é verdade. O governo nunca fez um levantamento das nossas demandas e da nossa produção nas comunidades ”explica Jefferson Ferreira, presidente da APIRR.

Leia também: “Território indígena produz natureza; agronegócio, lucro”, diz ex-presidente da Funai

Segundo ele, o governo não constrói como estradas e pontes por conta de interesses outros, já que na região há feiras todos os anos – tanto no Baixo quanto no Médio e Alto São Marcos – onde são vendidos produtos agrícolas das comunidades indígenas da região.

Jeans explica que para chegar a Boa Vista é preciso atravessar o Rio Uraricoera, que liga Maruwai à capital de Roraima de Balsa, o que segundo ele é um transtorno. O trajeto conta com um tre cho de balsa; travessia da Ponte do Maruwai que está numa situação precária; e travessia por um igarapé sem ponte, passando pela Comunidade Pato. “Quando a balsa quebra nós ficamos ilhados por meses. No período do inverno ficamos porque onde moramos é de difícil acesso ”, explica Jeans.

Merenda escolar

“ A merenda escolar não tem chegado de forma correta, recebemos apenas alguns itens. Quando vem frango, não tem feijão, não tem arroz. Quando vem arroz, falta leite, falta macarrão. Vem sardinha que é enlatado e isso não é alimento saudável para nossas crianças. Sempre vem faltando algo para complementar a merenda escolar. Às vezes chega verdura toda machucada e sem condições de aproveitamento ”, conta Jeans, pai de crianças e adolescentes que estudam na escola.

Governo Federal

“O governo federal de Jair Bolsonaro quer tirar o recurso do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) para investir em ação social. Eu não concordo porque é pouco dinheiro para investir na educação, não temos dinheiro para comprar merenda, para pagar o professor, e nem pra construir, o governo quer tirar 5% do FUNDEB nacional para pagar bolsa família. Não concordo ”, pontua Jeans.

Jefferson Ferreira, da APPIR, também discorda das políticas implementadas pelo governo de Jair Bolsonaro. “Sobre os professores do processo seletivo, o governo Bolsonaro aprovou lei, que trata da reforma administrativa, onde congela os investimentos e salários dos trabalhadores . Esperamos o concurso público específico e diferenciado para os professores indígenas. Mas desse jeito, acho que nunca vamos conseguir com tantas aprovações no congresso contra os profissionais da educação. Isso vai impactar o nosso estado e o nosso país ”, desabafa.

“O governo federal quer acabar com os direitos dos povos indígenas, tudo que conquistamos como nosso direito, o governo federal quer acabar. Está fazendo de tudo para tirar aquilo que é nosso garantido em lei ”, finaliza o presidente da APIRR.

Vai ter um colapso na educação escolar indígena

As chamadas levaram quase um mês para serem feitas e feitas já que as condições de internet na comunidade são muito precárias. Jeans, emocionado, desabafa para a reportagem do Brasil de Fato Brasil de Fato ao fim da conversa: “O Estado de Roraima está abandonado na educação. Daqui mais uns anos vai ter um colapso na educação escolar indígena se não cuidarmos enquanto é tempo “.

Nota da Secretaria de Educação e Desporto de Roraima

Procurada para responder ao teor da reportagem, a Secretaria de Educação e Desporto de Roraima adicionou uma nota para o Brasil de Fato , informando que “a educação indígena tem suas peculiaridades, dentre elas, o direito de a comunidade indígena definir sobre a abertura e formalização de uma escola, independente de haver uma unidade já em funcionamento próximo à comunidade. Esse é o caso da Escola Estadual Indígena José Joaquim, localizada no município de Pacaraima “.

Segundo a Secretaria, à época da criação da escola,” a comunidade solicitou, mesmo sabendo da dificuldade em obter de imediato um menor escolar. Hoje a unidade de ensino atende a 75 Alunos no Ensino Fundamental Anos Iniciais (1 ° ao 5 ° ano) e Anos Finais (6 ° ao 9 ° ano) . E tem 14 professores que lecionam o estabelecido na legislação educacional vigente e seguindo as diretrizes da educação nacional “.

E prossegue a nota oficial:” Em relação à estrutura, a Seed informa que o Governo de Roraima física está trabalhando para mudar a realidade dos prédios escolares da rede estadual de ensino tão necessitados de reformas, reparos e manutenção. Esse é o caso da Escola Estadual Indígena José Joaquim. Será feito o levantamento da necessidade de estrutura física, mobiliária e equipamentos em geral para serem adotadas como medidas, como abertura de processo, por exemplo “.

Sobre a falta de merenda escolar , a nota da Secretaria diz que Roraima, por conta da pandemia de Covid, segue com aulas remotas, e que “em período de aula regular, a merenda escolar é a mesma ofertada a todos os estudantes da rede, com o envio de gêneros não perecíveis e produtos da agricultura familiar para o preparo da alimentação escolar “.

Edição: Rogério Jordão


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