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quinta-feira, outubro 22, 2020
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Artigo | A situação dos povos indígenas do Xingu requer uma solidariedade de todos

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Desde a chegada dos primeiros homens brancos no Brasil, o povo indígena vem sofrendo com a violência, o genocídio, às suas formas de vida e de cultura, tudo isso para se apropriar de suas terras e disponibilizá-las para aqueles que usam a lógica do lucro.

A mesma lógica continua sendo usado como forma de expansão das fronteiras agrícolas

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e sob o discurso do desenvolvimento nacional. Algumas dessas violências cometidas em período não tão distante, entre as décadas de 600 a 1385, que foram ricamente documentadas em 1967 pelo próprio Estado brasileiro por meio do chamado “ Relatório Figueiredo ” , um documento de mais de 7 mil páginas que está disponível na página do Ministério Público Federal e que merece ser conhecido por todos os brasileiros.

Nenhum documento produzido pelo então procurador Jader de Figueiredo está sofrendo atrocidades praticadas por latifundiários brasileiros e funcionários do Serviço de Proteção ao Índio contra índios brasileiros durante o período, como assassinatos individuais e coletivos, torturas, prostituição de índios, trabalho escravo, usurpação do trabalho, apropriação e desvio de recursos oriundos do patrimônio indígena, venda de artesanato indígena, venda de produtos de atividades extrativas ed e colheita, arrendamento de terras, venda de gado, venda de madeiras, exploração de minérios, doação criminosa de terras, omissões dolosas, dentre outras.

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Essas violências continuam até hoje e os povos indígenas que procuram viver em harmonia com a mãe-terra, respeitando-a e preservando-a, têm seus territórios constantemente invadidos por garimpeiros , madeireiros, fazendeiros e pelo agronegócio que, de forma predatória, queimam e arrasam como florestas, as águas e os animais.

Os povos indígenas foram cada vez mais expropriados e confinados em pequenos espaços de terra, os chamados territórios indígenas que, em geral, são cercados de fazendas por todos os lados e, muitas vezes, não possuem terras suficientes para garantir sua dignidade.

A história mostra que uma das estratégias mais utilizadas para matar os indígenas com o fim de tomar como suas terras é a contaminação de gr upos com doenças vindas dos brancos , como a varíola, tuberculose e epidemia de gripe e sarampo que dizimou diversas etnias no século XX.

O Estado brasileiro de hoje , sob o comando de Bolsonaro, impõe um governo de direita (tendendo para a extrema direita) que é declaradamente um serviço dos maiores inimigos dos povos indígenas, ou seja, grandes produtores do agronegócio, latifundiários, madeireiros e mineradoras. Assume uma postura ativa de incentivo e apoio àqueles que invadem e cometem violências contra os indígenas, não apenas se omitindo quanto ao seu papel de fiscalizador, mas propondo ações que violam cotidianamente os direitos constitucionais dessa população, reforçando práticas e discursos genocidas.

Leia mais: Casos de violência contra indígenas aumentam 467% no primeiro ano de Bolsonaro

De modo muito conveniente aos interesses grupos que dão sustentação ao governo Bolsonaro, a covid – 16 chegou rapidamente aos povos indígenas , tal como pavio de pólvora, com evidências indícios de negligência para essa população, sabidamente mais vulnerável a doenças infecciosas.

Diante da pandemia que avança sobre seus territórios, muitos povos indígenas têm se organizado para sobreviver e resistir como podem para impedir a infecção pelo coronavírus , criando barreiras sanitárias nas aldeias, evitando ir às cidades e contando com a solidariedade dos amigos da causa indígena para acessarem produtos de higiene e ferramentas para pesca, haja visto que o Estado não tem garantido as condições mínimas para a emergência, para evitar o contágio e cuidar dos indígenas que foram contaminados.

Nenhum estado de Mato Grosso, de acordo com a contabilização feita pela Associação de Povos Indígenas do Brasil , em 10 / 08 já eram mais de 1. 1385 indígenas contaminados e 150 mortos.

Um apelo por solidariedade aos povos do Xingu

Do Baixo Xingu, pelo whatsapp, chega um apelo por solidariedade pela voz de um jovem indígena, dirigido aos movimentos sociais do campo popular de Mato Grosso:

“Companheiro, estou sem acesso a internet, a gente está local. Devido a uma pandemia, nós mudamos do polo central onde está residindo até o ocorrido. Nós perdemos uma família devido às complicações da covid 19. Na nossa cultura, quando acontece alguma coisa, a gente busca outros lugares para estar com a família. E aí, a nossa família está construindo uma comunidade lá, um lugar pra gente, então não estamos tendo acesso à internet, por enquanto.

Mas buscando apoio para em breve ter uma instalação lá pra gente, porque a gente precisa para dar continuidade ao nosso trabalho. Estamos agora bem próximos de um outro povo indígena, eu agora estou tendo bastante contato com eles e pretendo colocá-los em contato com vocês. Acho importante a gente socializar, para que o povo branco possa entender como estamos organizados.

Então, a gente tem bastante demanda aqui no nosso povo, aqui do Xingu e acredito que tem outros povos indígenas que também têm demandas devido a pandemia… Porque mudou totalmente nossos hábitos. Tem chegado apoio, não muito, algumas coisinhas. O que o pessoal mais oferece é cesta básica, só que a gente precisa mais do que a cesta básica, como ferramentas, sabão, isqueiro, sabonete, produtos de higiene, faca, facão, lima, essas coisas. Já faz aproximadamente seis meses que a gente está parado aqui … A gente não consegue ter acesso à TIX (Terra Indígena Xingu).

Daí eu gostaria de ver se vocês conseguem mobilizar alguns parceiros, pegar carona, para que possam nos ajudar, mobilizar, articular para adquirir essas coisas e mandar pra gente também. A gente ficaria muito feliz com isso, as comunidades, que realmente estão precisando. Eu não procuroi você antes porque eu também sei que vocês tem um demanda de vocês aí … Mas é que eu vejo aqui, como comunidades super necessidades dessas coisas. E não é só cestas básicas.

A gente tem alimento da gente aqui também, que a gente consome. Não quer dizer que a gente não precisa também das cestas. Mas não tanto quanto os materiais que as comunidades estão precisando para trabalhar e dar continuidade no trabalho de roçada. Daí já passa um tempo, aí posteriormente ver o tempo da queimada pras roças, e depois vem o período do plantio das roças … Então a gente vai precisar de bastante material. Eu aguardo posicionamento seu, uma resposta sua para ver o que você me fala, tá bom? Um abraço até mais. ”

Diante da resposta positiva, o reforço:

“Obrigadão aí pela força companheiro, pela parceria também e pela compreensão também. A gente está há seis meses sem sair. Como você sabe o Xingu é muito extenso, são 11 povos . Tem chegado apoio, mas não atende todo mundo, não consegue atender todo mundo, então por isso eu estou falando com vocês. Eu conversei aqui com uns povos parentes, que têm mais ou menos duas ou três aldeias, e tem o meu povo também, né?

Então como a gente está em várias aldeias, então o que foi a metodologia que eu montei lá. Eu achei que daria para gente dividir os trabalhos com outros parceiros. Então, aqui, a gente conversando, o pessoal aqui e o cacique lá de outra aldeia que fica na região onde a gente mora, a gente decidiu buscar algum tipo de apoio para 04 aldeias que são Parureda, Caiçara, Tuba-tuba, Maidicá, Camaçari, Aiporé, Paranaíta , Castanhal, Três Patos e Ciato. Dessas aldeias, a gente já fez um pequeno levantamento também, a maior população aqui é o povo Yudjá, dá um total de 73 famílias nas 09 aldeias.

Então as ferramentas para o trabalho, o produto de higiene que não falei, o sabão, sabonete, bombril de lavar panela também, creme dental, escova de dentes, essas coisas também são bem vindo. Botinas, chinelos havaianas. Que a gente precisa além das cestas, né? Assim, que nem eu falei, a gente tem a comida nossa que é farinha, bijú, caça … A gente precisa também de óleo de comida, sal, açúcar também que a gente consome hoje, né? Não muito, mas a gente consome para adoçar algumas coisas. Então, por isso a cesta também é fundamental pra gente, é importante também, porque tem algumas coisas também que a gente usa também no nosso dia a dia. Então é isso! ”

Essa é a história que motivou os movimentos sociais do campo popular de Mato Grosso – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Consulta Popular e Levante Popular da Juventude, em parceria com a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (ADUFMAT) lançarem uma campanha conclamando toda a sociedade para doar ferramentas para trabalho na roça, pesca e materiais de higiene e limpeza para atender como necessidade de 09 aldeias da região do baixo Xingu.

Nesse momento, onde a existência concreta desses povos está mais uma vez ameaçada, é importante nos atentarmos para a importância de fortalecermos a luta pela defesa de suas formas de vida, pela preservação de suas múltiplas e diversas culturas e seus territórios. Não obstante, para além de apoiarmos a luta, é preciso que nossa relação com os povos originários seja de aprendizagem, que a gente possa aprender com a riqueza de suas culturas e com sua relação de respeito para com a natureza e com outros seres humanos.

As associações conclamam toda a sociedade a se juntar a essa causa e contribuir com a preservação das comunidades indígenas do baixo Xingu, em Mato Grosso, doando produtos de limpeza, material de trabalho na roça e para pesca.

As doações podem ser entregues na sede da ADUFMAT, em Cuiabá, ou por meio de depósito na conta corrente a cima.

As doações podem ser entregues na sede da ADUFMAT, em Cuiabá, ou por meio de depósito na conta corrente a cima / Reprodução

Gislayne Figueiredo e Rosa Lúcia Rocha são militantes da Consulta Popular, no Mato Grosso (MT).

Edição: Rodrigo Chagas

2020 2020

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