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segunda-feira, outubro 19, 2020
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Puxadas por Universal, candidaturas de sacerdotes religiosos batem recorde em 2020

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Pastores, padres, bispos e outras lideranças religiosas vão aparecer mais nas urnas este ano. Segundo apuração da Agência Pública, a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as eleições 2020 registraram um recorde de candidatos que declararam como principal ocupação “sacerdotes, membros de ordem ou de seita religiosas”. São 885 ao todo, o maior número nessa categoria em eleições municipais desde 2008. 

Além dos candidatos que declararam que sua principal ocupação é ser membro de grupo religioso, mais de 8,7 mil candidatos utilizam nomes ligados a religião, como pastor, pastora, padre, missionário e apóstolo, dentre outros, segundo levantamento do G1. A maior parte desses candidatos, contudo, declararam outras ocupações, como dona de casa e empresário.

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A maior parte das candidaturas (101) é do Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus —  cujo presidente é o deputado federal Marcos Pereira, bispo da Universal e vice-presidente da Câmara dos Deputados. A cada dez candidatos que declararam como profissão cargos religiosos em 2020, um é do partido. Republicanos é historicamente uma das legendas que mais concentra candidatos nessa categoria: foi o partido com mais candidatos com profissão ligada a igrejas e grupos religiosos em 2008 e 2012, quando utilizava a sigla de PRB. Nas últimas quatro eleições, reuniu mais de 300 candidatos que declaram ocupações ligadas a igrejas.

O segundo partido com mais candidatos neste grupo  — 79 postulantes — é o PSC (Partido Social Cristão),que tem como presidente nacional licenciado o Pastor Everaldo da Assembleia de Deus. Foi ele o responsável pelo batismo do presidente Jair Bolsonaro no Rio Jordão, em Israel. Bolsonaro foi filiado ao PSC entre 2016 e 2018, quando mudou para o PSL. Atualmente o pastor Everaldo está preso sob acusações de participação em esquemas de desvio de recursos públicos da saúde no Rio de Janeiro.

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Entre os dez partidos que lançaram mais sacerdotes e profissionais do campo religioso para as disputas eleitorais este ano, todos possuem perfil mais conservador e estão alinhados à direita.

O perfil mais comum de candidatos é homem, com Ensino Médio completo, autodeclarado negro e concorrendo em São Paulo. O estado é o que registrou a maior quantidade de líderes religiosos disputando cargos públicos, mas o Amapá é onde esse número é proporcionalmente maior. Em seguida estão Mato Grosso do Sul e o Pará.

O número de candidatas mulheres tem aumentado ano após ano — já são um quinto do total de candidaturas cuja profissão está ligada a igrejas, mas ainda abaixo da média de 30% definida por lei por partido.

Apesar de numerosos, candidatos com profissão religiosa são eleitos abaixo da média total: cerca de 8% dos que concorreram se elegeram em 2016, contra quase 14% de todos os candidatos no ano. A maior parte dos candidatos religiosos, contudo, encontra uma forma de entrar na política via suplência. A cada candidato com profissão ligada à religiões que foi eleito, oito se tornaram suplentes. “A suplência é uma forma de estabelecer pactos”, analisa o  professor de Sociologia da UFSCar e pesquisador do Núcleo de Religião, Economia e Política, André Ricardo de Souza. “Quando você coloca suplentes vinculados a instituições religiosas, está buscando apoio dos eleitores dessa religião”, considera. 

Entre os 885 candidatos que disseram ter o sacerdócio como ocupação profissional há pelo menos 387 pastores e pastoras e 28 padres, além de bispos, bispas e missionários. Esses títulos são geralmente associados a religiões cristãs, como a católica e a evangélica.

Candidato a vereador pelo Republicanos no município de Americana, em São Paulo, o pastor Miguel Pires, 48 anos, não pretende se afastar das atividades como pastor da Igreja Quadrangular de Jardim América 2, que tem 200 membros, durante a campanha. 

Em sua primeira disputa eleitoral, Pires resolveu entrar para a política depois de 20 anos atendendo dependentes químicos no Projeto Uma Nova História, casa de recuperação evangélica mantida por ele, onde abriga 20 pessoas. “Estou sempre batendo na porta da Câmara dos Vereadores. As ONGs, projetos sociais como o meu enfrentam dificuldades. Precisa ter alguém lá dentro da Câmara”, argumenta. O candidato diz que “a igreja precisa tomar seu assento na política”. “Senão vão aprovar muitas leis contra as famílias cristãs”, diz, dando como exemplo projetos relacionados a aborto e questões de gênero. 

Maior parte dos candidatos que declararam profissão de sacerdote religioso não foi eleita pelo voto direto em 2016, mas chegou à política como suplente

Candidaturas confessionais 

Quando escolhe levar um título religioso para as urnas, o candidato procura legitimidade entre os membros de sua instituição religiosa, que são seus primeiros eleitores, analisa Brenda Carranza, cientista social, professora de Antropologia da Religião na Unicamp. “Se candidatar como padre, pastor, missionário – sobretudo em um partido conservador, neste momento de alta do conservadorismo dá prestígio.” Ela chama atenção para o aumento da confessionalidade na política brasileira como um fenômeno recente. 

“A participação de sacerdotes na política sempre aconteceu, mas era um ativismo via lobby, nos corredores do poder. Hoje, com a pluralização da participação religiosa, fundamentalmente pentecostal, na esfera pública, a disputa partidária nos pleitos eleitorais é mais acirrada, obrigando representantes a se identificar institucionalmente para marcar presença e visibilidade”, explica. 

O engajamento político-partidário de representantes de instituições religiosas cresce no Brasil desde a Constituinte, quando a Assembleia de Deus decidiu se engajar na política partidária, lembra o pesquisador do Núcleo de Religião, Economia e Política, André Ricardo de Souza,  “Posteriormente a Igreja Universal do Reino de Deus assumiu um posicionamento muito firme neste sentido. Isso explica o grande protagonismo do PSC e do Republicanos nessas candidaturas.” 

Embora legislação eleitoral não estabeleça restrição à candidatura de pessoas que ocupam cargos religiosos e a tese sobre punições para abuso de poder religioso não tenha prosperado, o advogado eleitoral Fernando Neisser esclarece que, se o postulante decidir manter atividades sacerdotais durante a campanha, não pode usar o espaço da instituição religiosa para ganhar eleitores. “Por exemplo, aproveitar o púlpito para pedir votos é irregular.”

Bolsonaro, política e religião 

O maior número de candidatos sacerdotes nestas eleições também está relacionado à eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), avalia o professor de Sociologia da UFSCar e pesquisador do Núcleo de Religião, Economia e Política, André Ricardo de Souza. “A sua candidatura e atuação relacionada ao espectro cristão conservador (Bolsonaro é católico e sua esposa é evangélica) estimula candidatos neste segmento.”

Para ele, a maior projeção dos evangélicos em cargos no governo federal, como a ministra de Direitos Humanos, Mulher e Família, Damares Alves, também incentiva candidaturas, além do próprio interesse de instituições religiosas em terem representantes que possam defender suas pautas no Legislativo e no Executivo.

“Nós não endeusamos o presidente Bolsonaro, mas ele representa ideias, projetos, coisas que são caras para nós”, confessa o pastor presbiteriano Izaias Meireles, candidato a vereador em Curitiba pelo Avante. Ele resolveu ingressar na política partidária por sugestão dos membros de sua igreja, com 200 integrantes. Para os presbiterianos – uma denominação evangélica tradicional, que têm pelo menos dois pastores no Planalto, o ministro da Justiça e da Segurança Pública, André Mendonça e o ministro da Educação, Milton Ribeiro – a mistura entre religião e política não é um tabu, diz o pastor candidato. 

“Vivemos em sociedade, usamos serviços públicos. Acreditamos que devemos participar dos processos políticos e servir a Deus com isso.” Meireles não usa o título de pastor na candidatura e se afastou das atividades pastorais para fazer a campanha.

Domínio cristão 

Pai Ivon de Oyá, do terreiro Ilê Cultural Axé Oyá Egun, em Olinda (PE), com 30 membros, é um dos poucos sacerdotes do candomblé na disputa eleitoral deste ano. Candidato a vereador pelo PCdoB em Olinda, ele faz um trabalho social com mulheres e crianças em situação de vulnerabilidade e diz que se sentiu obrigado a entrar na política. 

“Porque existe forte representação de outras religiões, mas as de matriz africana e indígena, o povo negro e indígena, não estão representados”, considera. O candidato pretende continuar realizando suas atividades no terreiro durante a campanha. 

O avanço político do segmento afro foi incentivado pelos movimentos sociais nos últimos anos, considera Christina Vital da Cunha, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF e colaboradora do Instituto de Estudos Religiosos (ISER). “Esse movimento tem feito crescer o número de candidaturas de pais e mães de santo.”

Ela considera que candidaturas de sacerdotes religiosos, de modo geral, são uma estratégia de fortalecimento do capital político, de uma conexão com nichos.“Para os cargos proporcionais esta estratégia continua sendo valorizada. Vale observar que para os cargos majoritários as estratégias são outras. Justamente porque se espera que nesta posição o candidato seja capaz de se comunicar com múltiplos setores sociais”, analisa. 

A estratégia de nicho, diz Christina, é observada também em candidaturas de militares, professores, médicos. “São identidades que geram expectativas públicas, além de conectar emocional e ideologicamente os atores sociais neste contexto político.”

Metodologia da análise de dados

Todos os dados foram retirados do repositório de dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral das eleições municipais dos anos de 2008, 2012, 2016 e 2020. Para chegar aos dados de candidatos sacerdotes religiosos, filtramos os candidatos que informaram na categoria “Ds Ocupação” a ocupação de “sacerdotes, membros de ordem ou de seita religiosas”.

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