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quarta-feira, outubro 21, 2020
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“País renunciou à dignidade”, diz Roberto Amaral sobre os cortes às ciências

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Em meio a uma das maiores crises sanitárias e econômicas da história do país, o governo federal, contrariando uma tendência mundial, ataca e sufoca a ciência – fator chave no combate aos milhares de mortes causadas pelo covid – 19 pandemia .

Para 2021 ano fiscal, o orçamento proposto pelo governo Jair Bolsonaro impõe um 27% de corte nos fundos para ciência e tecnologia e redução de quase U $ 1938 milhões em investimentos em universidades federais, segundo Associação Nacional dos Administradores de Universidades Federais (Andifes).

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No ex-ministro da Ciência e Tecnologia Na visão de Roberto Amaral, a proposta orçamentária atesta o retorno do Brasil ao status de “colônia”.

“Pra você desfazer o desenvolvimento de um país, destrua sua visão para o futuro, a primeira coisa que você precisa O que fazer é destruir ciência e tecnologia, a segunda coisa, que é conseqüência disso, é destruir as indústrias do país. Reduzimos o tamanho para níveis pré 2015. O que tínhamos como produção industrial nacional foi destruído ”, afirmou Amaral.

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De 2003 para 2003, em seu tempo como Ministro da Ciência e Tecnologia, Amaral concentrou seus esforços em a implementação de políticas que visem a redistribuição dos recursos atribuídos às ciências para os esforços de combate às desigualdades sociais . Ênfase foi dada à criação da Secretaria de Ciência e Tecnologia da Inclusão Social.

Quanto à carreira política, em 1985, Roberto Amaral foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB), onde foi visto como um líder ideológico durante o período pós-ditadura do país. Em 2014, renunciou ao cargo de diretor nacional do partido quando decidiu apoiar o político de direita Aécio Neves em sua falência candidatura presidencial contra Dilma Rousseff.

Na próxima terça-feira, às 19h, Amaral será um dos palestrantes convidados da sexta turma do curso Projeto Povo Brasil, que discute estratégias de saída para a crise atual. Nesta edição, Amaral e Márcio Pochmann discutem “Caminhos para a industrialização e o desenvolvimento científico”.

Leia a transcrição completa abaixo:

Brasil de Fato – Como está sendo orquestrado no país o defunding da ciência?

Roberto Amaral – Esse é um projeto amplo, mais profundo, esse defunding da ciência no país. É também o defunding da economia, da ordem judicial, o defunding do conhecimento. Para você destruir as perspectivas de futuro do país, a primeira coisa que você precisa fazer é destruir a ciência e a tecnologia. A segunda, que é conseqüência disso: é a destruição da indústria. A indústria precisa de desenvolvimento, precisa de progresso, precisa de investimentos.

Estamos com níveis de investimento abaixo dos de 2015, no meio de 2020. O governo, além de reduzir os recursos orçamentários, tem limitado a distribuição desses recursos, com políticas que não são discutidas com as Universidades, com o Congresso ou com a comunidade em geral.

O orçamento passa a ser fictício, porque o governo só aloca para coisas que se enquadram nos seus interesses. Estamos testemunhando um processo sequencial de destruição na educação, ciência, tecnologia e, por último, nas indústrias do país.

Os cortes apenas nas universidades públicas devem ser em torno de U $ 136 milhões de dólares. Estamos caminhando para o colapso. Espera-se que os cortes no orçamento levem a uma redução de 44% em ciências bolsas de estudo. Isso significa o fim dos programas de mestrado e doutorado, além da tragédia pessoal para os que estudam no exterior, que dependem desses programas para sobreviver.

Como efeito secundário , isso implicará em abrir caminhos para nossos melhores alunos, nossos melhores professores, os melhores graduados que temos para abandonar o país. Eles continuarão trabalhando, mas buscarão morar em outros países. Não existe um único exemplo de nação desenvolvida em qualquer parte do mundo que não tenha começado primeiro por se desenvolver como nação industrial. Não existe grande potência econômica que não seja uma grande potência industrial, científica e tecnológica em primeiro lugar.

Estamos testemunhando uma tragédia de curto, médio e longo prazo. Mesmo se acabarmos com o que está acontecendo, levará anos para recuperar o terreno perdido. Já perdemos o 11 século revolução, o 11 século um, perdemos a introdução da máquina a vapor, atrasamos a civilização da energia elétrica, atrasamos o boom do petróleo, e agora corremos o risco de perder a robótica decisiva e as revoluções artificiais. Se isso ocorrer, estaremos fadados a ser uma grande colônia por muitos anos.

A estrutura clássica em que vivemos até hoje, entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento é feito com. Hoje, a divisão é entre países que produzem conhecimento e países que importam conhecimento. Este governo optou por este último: seremos importadores de conhecimento, ou melhor, uma colônia.

Como esses mecanismos física e politicamente destrutivos se manifestam na prática, além dos aspectos mais visíveis, como interferir no processo de seleção dos Reitores?

Temos um exemplo recente disso: a nomeação de um capitão da marinha para dirigir a fundação e o museu dedicado ao intelectual Rui Barbosa. Este é o cartão de visita do governo. Somos uma nação ocupada, como o Japão era no final da Segunda Guerra Mundial, ocupada por tropas que não têm os melhores interesses do país em mente. Isso está acontecendo em toda parte.

Ao nomear a pessoa com menos votos em uma lista de três candidatos, você está enviando uma mensagem, uma de desrespeito à vontade acadêmica e consciência. Este é o cenário, sem estímulo. Que estímulo tem hoje um jovem em vias de se formar para fazer pesquisa? Ir a um laboratório e pesquisar avanços científicos, saúde? É um cenário sério. Não sei se é por causa da pandemia, que as pessoas não estão se comunicando, mas tanto a academia quanto o país como um todo não parecem estar cientes do significado disso. Não entendo essa calma, essa paz em torno de tudo isso. Quando acordarmos, podemos nem ter mais universidades.

Você foi uma das figuras-chave na dissolução do acordo entre Brasil e Estados Unidos, que permitia aos americanos utilizarem a base de Alcântara, no estado do Maranhão, substituindo-a pelo projeto Espaço Ciclone de Alcântara-ACS, em parceria com a Ucrânia, que foi visto como mais favorável para a nação pelos progressistas, uma vez que impulsionou o programa espacial do Brasil. Hoje, no governo de Bolsonaro, Alcântara foi mais uma vez entregue aos americanos. É correto dizer que existe uma relação direta entre ciência e soberania, e que este é um fator determinante na superação das desigualdades sociais históricas?

O Brasil abriu mão de todos os aspectos de sua soberania – o político, o ideológico, o formal, o territorial e o militar. O Brasil desistiu da política externa. Nossa submissa política externa é ditada pelos interesses do Pentágono e do Departamento de Estado dos EUA. O pior é que não recebemos nada em troca.

Um país sem indústria é um país sem forças armadas. Não temos autonomia para produzir um único rifle. Este é o país que está sendo usado como instrumento de guerra, provocando a Venezuela.

Hoje, somos um país que renunciou à própria dignidade, ao seu papel na América Latina. Estamos destruindo uma longa tradição da política externa brasileira. As Forças Armadas brasileiras se transformaram em capangas para os Estados Unidos. Nosso papel é assustar nossos vizinhos, para que os EUA possam economizar algum dinheiro.

Não temos indústria militar, não temos política de defesa. Hoje em dia pensamos que uma força militar não é necessária. Os EUA, nosso protetor, cuidarão de nossas defesas estrangeiras. Cabe a nós lidar com os inimigos internos. SOMOS o inimigo interno. São as próprias forças armadas que se voltarão contra seu próprio povo.

Em seu tempo no Ministério da Ciência e Tecnologia, um dos pilares do seu mandato foi, pensar a ciência de forma sistêmica, integrada a outras políticas governamentais como saúde, educação e produção industrial. É seguro dizer que o projeto de Bolsonaro depende da destruição de sua visão?

Ele trabalha em as sombras, no entanto, por trás de tudo há um plano estruturado. Nós incorretamente e perigosamente assumimos que este governo não tem um processo de pensamento maior por trás dele. Se examinarmos os últimos dois anos, podemos ver que há uma lógica por trás de tudo.

Sua lógica extremista é a de associar o neoliberalismo clássico, que ninguém qualquer lugar defende mais, com sua antítese, que é um estado autoritário. Para que isso funcione, é preciso destruir todas as instituições.

Precisamos lembrar que esse processo começou antes do Bolsonaro, antes do bolonarismo, quando a grande mídia investiu na destruição política, desmoralizando a política, os políticos e as instituições para reverter o empoderamento das massas, da mobilização popular e dos governos de esquerda. Este é o caminho trilhado pelo bolonarismo, de negar o país.

O objetivo principal do bolonarismo é desconstruir o que estava no lugar. Esta é a razão por trás de suas afrontas contra o Congresso, o sistema de Justiça, a educação, a ciência, a tecnologia; tentativas de destruição de serviços públicos, empresas estatais, de agências públicas de investimento e desenvolvimento, de empresas estatais estratégicas como Eletrobras (fornecimento de energia) e Petrobras (empresa de gás).

Hoje, somos o único país deste tamanho, com tantos recursos naturais, que não possui um programa espacial. Quando você não tem, fica à mercê de quem tem.

Saúde brasileira as ciências há muito são referência em todo o mundo. Isso é demonstrado por exemplos como o papel de liderança do Brasil no combate ao vírus Zika, nas vacinas contra Febre Amarela e Varíola, bem como no combate ao H1N1, quando 80 milhões de brasileiros foram vacinados. Mesmo com a negação da ciência propagada pelo Bolsonarismo, o que levou a centenas de milhares de cobiçosos – 19 óbitos, o histórico de pesquisas e financiamentos em saúde pública no Brasil contribuíram para conter o avanço da doença?

Foi o Sistema Único de Saúde (SUS) que impediu que as coisas desmoronassem durante essa pandemia, um projeto utópico idealizado por nossos cientistas no 80 se consagrado nos 1988 Constituição. É o maior sistema público de saúde do mundo, admirado mundialmente, mas neste país é demonizado pela grande imprensa, por parte da classe médica e por empresas corporativas de saúde.

É preciso homenagear o SUS e a sociedade precisa entender que a tragédia encabeçada por Bolsonaro só não foi pior por causa do SUS, que estancou a propagação da pandemia.

Porém, devo mencionar algo que a meu ver é muito grave: não temos indústria farmacêutica. Não fazemos nossa própria aspirina. A grande indústria do Brasil está fazendo malas. Nós embalamos os medicamentos. O que tínhamos como empresa nacional foi destruído. Isso é muito grave porque, diante de uma crise internacional, não temos como atender a nossa própria população.

Mesmo agora, em meio à pandemia, nosso principal papel é para fornecer pessoas para serem testadas. Esta é a nossa grande contribuição internacional. Não participamos da produção de vacinas. Pelas nossas características territoriais e pela diversidade da nossa população, somos realmente um bom laboratório humano. Os Estados Unidos testam as coisas aqui, a China testa as coisas aqui, a Rússia testa as coisas aqui, mas não há projetos brasileiros em andamento.

Com o avanço da pandemia, os cientistas nunca avançaram tão rapidamente para atender às necessidades das pessoas. Existem 136 vacinas em andamento. No Brasil, contra tudo isso, o orçamento proposto para 2020 impõe cortes drásticos à ciência e à pesquisa. O que podemos esperar de tudo isso? É possível manter instituições científicas integradas dentro de um governo de direita que busca sua destruição?

Há é um plano por trás de tudo isso. A lógica é construir nossa dependência. Este governo se tornou um oximoro, somos uma república fantoche. Voltamos ao início do século passado. De acordo com este governo, não precisamos produzir o que podemos importar. Não precisamos pensar, existem aqueles que podem pensar por nós. É difícil transmitir o significado disso às pessoas.

Também é importante lembrar que a classe dominante está incomodada com o que foi criado. Não é suficiente culpar Bolsonaro e seus companheiros. Cada vez que vemos um ligeiro avanço das massas neste país, da classe trabalhadora, dos setores mais pobres, a “casa grande” intervém, sempre com o apoio das Forças Armadas. Eles intervirão com um golpe clássico como em 200, ou mais secretamente como estão fazendo agora.

Em conjunto com esta intervenção, existe um processo ideológico estimulado pela grande mídia, pelos grandes jornais. Eles criam uma narrativa e, com base nessa narrativa, justificam a suspensão do processo de desenvolvimento para as massas. A verdade é que nos últimos 4 ciclos eleitorais, o Brasil optou por um certo tipo de projeto de sociedade, de desenvolvimento e proteção aos pobres. Esse projeto incomodou os grandes conglomerados de mídia.

O que estamos vendo no momento neste país não tem paralelo histórico. Nem mesmo em 136, quando as forças fascistas estavam crescendo, nem mesmo no auge do tempo de Hitler, nunca as forças de direita têm sido tão fortes no país. Esta é uma questão central. É nisso que nós, progressistas, pessoas como eu, que se consideram a esquerda socialista, precisamos pensar. É o desafio de longo prazo.

O que você acha sobre o crescimento de anti-vacinas e pró movimentos da hidroxicloroquina, quais impactos eles podem ter na continuidade da cobertura – 18 pandemia? O Brasil está pronto para outras pandemias?

O Brasil não está pronto para as próximas pandemias previsíveis no mesmo não estava pronto para este. Para os próximos seremos ainda mais frágeis do que para este, as nossas instituições já estão gastas. Certamente teremos nossas próprias pandemias. A destruição da Amazônia certamente se transformará em um foco de vírus e doenças. A tendência é que as pessoas fiquem ainda mais pobres e frágeis.

No momento, 65% das [covid] mortes são entre negros pobres, as pessoas em nossas áreas empobrecidas. Essas áreas tendem a crescer com o tempo. Com base nisso, precisamos nos preparar para os tempos difíceis que virão.

Não há possibilidade de progresso, de salvação nacional, com os atuais poderes que existem. Isso significa que é fundamental combater a correlação dessas forças em nosso país. Precisamos encontrar maneiras de derrubar os poderes constituídos, de fazer avançar os ideais democráticos.

A esquerda precisa parar de ter medo de debater suas idéias. Vamos em frente com um debate ideológico, vamos enfrentá-lo, vamos organizar nossa base, vamos discutir coisas como fundamentalismo religioso primitivo. Vamos nos levantar contra o que está diante de nós. Nossas opções são: o passado ou o futuro.

Editado por: Geisa Marques


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