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sábado, outubro 31, 2020
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Artigo | A precarização do trabalho docente em tempos de ensino remoto

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Uma professora, em um domingo, ao ser questionada sobre a ampliação de determinado prazo pelo grupo de whatsapp, solicitou que a mensagem fosse enviada por e-mail, pois aquela forma precarizava o seu trabalho. Uma outra professora foi questionada em decorrência de uma participação da participação da sua mãe e de seu cachorro durante a aula de apresentação da disciplina. Um professor ficou constrangido ao ter que cuidar de uma criança que chorava ao lado enquanto estava em uma reunião. Outro professor, ao demorar um pouco mais de meia hora para responder determinado questionamento no grupo de W hatsapp da turma, foi surpreendido com a seguinte mensagem de um estudante: “ele nunca responde “. Uma professora, com experiência em sala de aula, desabafou: “estou angustiada com o retorno das aulas e com a forma que elas serão ministradas”.

Em uma reunião, fornecida professora afirmou que precisou comprar um ar condicionado e uma cadeira porque passava o dia todo sentada, derramando suor. Os demais professores afirmaram que precisaram fazer adaptações em casa. Determinado estudante solicitação: “Professor, tem como disponibilizar a gravação da aula? Lembre de lançar a atividade nas tarefas da plataforma!”. Durante as aulas e reuniões sempre se escuta uma frase: “Está travando!”. Uma frase dita: “Estou com covid!”, Ou o relato de que familiares contraíram a doença, se-se comuns.

Determinado professor, íntima a seguinte mensagem: ” Professor, não posso abrir a câmera porque estudo na sala, ao lado da minha família, não tenho um quarto “. Em frase frases de reclamações sobre o ensino remoto são ditas aos professores, transferindo a eles uma responsabilidade que não é sua.

Tais frases e situações aconteceram comigo ou foram por mim presenciadas ou compartilhadas a partir de março de 2020 no âmbito da docência do ensino superior. Sei que para os demais docentes espalhados no país também se comuns. Isso é reflexo de uma mudança abrupta na forma de usar.

Em decorrência do isolamento social imposto para conter uma pandemia mundial, quando as instituições de ensino passaram a adotar o ensino remoto, um ensino a distância que se alterna entre aulas síncronas – “ao vivo” – e aulas assíncronas – que o estudante poderia assistir a qualquer momento. E o que as frases narradas acima e a adoção do ensino remoto nos apresenta para uma qualidade de trabalho docente?

Leia mais: Professores, pais e alunos apontam dificuldades e limitações do ensino a distância

Narram uma ampla precarização do ensino dos profissionais da área da educação. E trazem alguns levantamentos e questões. A primeira delas é o uso massivo das redes sociais para o trabalho. Ou seja, o que antes era visto como forma de aproximar o convívio familiar e social, tornado-se de forma imediata e autoritária num instrumento de trabalho. Não importa o horário ou o dia: os docentes receberão mensagens em aplicativos de respostas simultâneas relacionadas ao trabalho.

Um outro aspecto envolve um invasão do espaço da casa – local de descanso lazer, relaxamento, cuidado com outros membros familiares, etc. – pelas atividades de trabalho. A casa dos / as docentes foi e amplamente divulgada ao restante da comunidade acadêmica. Os espaços e objetos individuais e personalíssimos tornados públicos. As situações rotineiras de uma casa, quando se tornam públicas, como o cuidado de crianças ou a circulação de demais membros familiares, geram constrangimento.

Para além disso, o ensino remoto envolveu adaptações em espaços e mobílias, sem contar que o gasto necessário para o trabalho recaí nas costas dos trabalhadores, como a energia, internet, cadeira, etc.

A situação de angústia permanente também acirra a precarização do trabalho. Há uma grande preocupação sobre a lida com as ferramentas tecnológicas, que, convenhamos, apesar de inúmeros treinamentos transmitidos pelas instituições, não se aprende do dia para a noite.

Há uma preocupação se os discentes estão aprendendo, afinal, salas de aulas com câmeras desligadas e sem o contato do olho no olho, geram incertezas e desconfortos. Qual professor / a nunca passou pela situação de inquérito se os estudantes estavam compreendendo e, apesar do silêncio, reconhecer a dificuldade no processo de aprendizado? Há também a preocupação sobre as condições de ensino desse estudante – local, convívio familiar etc. – e uma angústia natural em tempos de pandemia: verificar pessoas adoecendo e morrendo.

Os / as docentes tiveram o seu direito de imagem surrupiados pela pandemia. Num mundo globalizado, altamente informatizado e com uma evidente insegurança nos dados obtidos pelas redes, fica a impressão de que os grupos que fornecem os encontros em tempos reais já se apropriaram dos rostos, dos filhos e dos pensamentos grande parte dos professores e professores.

Sem contar com o reforço e a ampliação da sociedade do controle para o ambiente da sala de aula: na possível vigilância permanente sobre o que é ensinado, ou seja, é um trabalho que tende a ferir a liberdade de cátedra e pressão o trabalho de quem deseja ensinar.

Percebemos, portanto, que a pandemia impulsionou uma “velha” ideia: o ensino a distância . E tal situação acirrou desigualdades – de classe, raça, gênero e regional – e a exploração do trabalho. Afinal, houve o aniquilamento da divisão entre espaço de lazer e de trabalho, seja do ponto de vista psicológico do / a docente, seja do pressuposto existente de que os / as docentes estão com disponibilidade ao trabalho a todo o momento.

Ouça: Quais os impactos do Ensino a Distância (EaD) no contexto da pandemia de Coronavírus?

Há, ainda, o sentimento de angústia: em torno da possibilidade de não ganhar salário, de “projeto” de retorno ao trabalho presencial, do imaginário social – que, inclusive, é impulsionado pelo presidente -, de que não estão trabalhando. Há também a desesperança ao verificar que a educação se tornada um espaço de aulas exclusivamente expositivas, de raríssimas sociabilidades, o reforço de uma educação vista enquanto uma mera transmissão vertical do.

Nestes tempos futuros, em que as disputas serão acirradas, existirá um projeto bem marcado, com forte influência no mercado educacional, de potenciar a educação a distância. O nosso dever do tempo presente é acumular sobre as dificuldades vivenciadas em torno do ensino remoto: identificar para evidenciar as suas limitações. Essas limitações devem ser reconhecidas pelos docentes, discentes e pela proposta educacional em jogo, com o objetivo de contra-atacar para garantir uma educação pública, gratuita, laica, de qualidade e presencial.

Edição: Rodrigo Chagas


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