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quinta-feira, setembro 24, 2020
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Conheça as pré-candidaturas evangélicas que desafiam o conservadorismo cristão em MG

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Para romper com o conservadorismo das bancadas cristãs, pré-candidatos evangélicos e progressistas despontam no cenário eleitoral deste ano. É o caso de Jonatas Aredes, que compõe um coletivo de quatro pré-candidatos evangélicos, chamado Plural, que pretende disputar a vereança, pela Unidade Popular (UP), em Belo Horizonte (MG). Para ele, vereadores da bancada cristã da capital mineira não representam o público evangélico e aparelham a fé e a religião para defender interesses pessoais.

“Maioria dos evangélicos são pretos. Homens e mulheres brancos, conservadores e ricos estão tentando fazer com que a periferia se torne conservadora em nome de Jesus. Não podemos permitir”. Comenta pré-candidata.

“A gente quer disputar a política institucional para fazer uma contranarrativa do que é ser evangélico e também para fazer política instrumentalizada pelos movimentos populares, que vá de encontro às necessidades da população carente, dos marginalizados, dos despossuídos”, comenta Jonatas, que é gay e divide a pré-candidatura com mais um homem e duas mulheres.

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Todos são negros e defendem a ideia de que ser evangélico não é sinônimo de ser conservador. “Existem evangélicos que não aceitam associar a sua fé a práticas machistas, racistas, LGBTfóbicas. Ao contrário, há gente que tem a compreensão de que o evangelho é uma luta radical pela vida e pelo direito de todas as pessoas. Jesus fala de vida vivida em abundância. Mas como se fala em vida abundante com retirada de direitos fundamentais?”, completa.

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Cenário conservador

A relação entre igrejas evangélicas e política tem se intensificado nos últimos anos no Brasil. Nas eleições de 2018, segundo dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a bancada evangélica na Câmara Federal cresceu de 75 para 84 deputados. No Senado, o número quase dobrou, saltando de três para sete representantes.

A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, que reúne atualmente 283 parlamentares, está associada a posicionamentos conservadores frente a assuntos que tratam dos direitos das mulheres, da população LGBT e da liberdade religiosa. Essa tendência se repete nos legislativos municipais.

Em Belo Horizonte, por exemplo, a bancada cristã reúne 29 vereadores evangélicos e católicos, que foram protagonistas na derrubada do Projeto de Lei 904/2019 que criaria o Dia Municipal de Combate ao Feminicídio, na aprovação no primeiro turno do Projeto de Lei 274/2017, que institui o programa Escola Sem Partido e estabelece o controle privado e ideológico do ambiente escolar e apareceram contrários a diversos outros debates relacionados a gênero e diversidade sexual.

Representatividade da favela

A pré-candidatura coletiva Nós por Nós, das Muitas/PSOL, reúne quatro moradores do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, sendo que um deles, Fábio Diniz, é evangélico. Para ele, a iniciativa debate a representatividade da favela e abraça a ideia de que nem toda igreja é fechada ao diálogo.

“O grande desafio [nesse diálogo] é quebrar o preconceito e entender que progressista não é aquela pessoa que nega a fé, nega os preceitos da Bíblia, da fé cristã. Jesus foi progressista. Ele mostrou um novo evangelho, um novo olhar, uma forma nova de fazer, de ver, de amar, de praticar”, aponta.

“Existem evangélicos que não aceitam associar a sua fé a práticas machistas, racistas, LGBTfóbicas. O evangelho é uma luta radical pela vida e pelo direito de todas as pessoas”, acrescenta.

Jesus foi progressista. Ele mostrou um novo evangelho, um novo olhar, uma forma nova de fazer, de ver, de amar, de praticar

Ao mesmo tempo, Fábio critica “o corporativismo religioso” e a atuação de grupos evangélicos que são usados para eleger candidatos da igreja, em defesa de interesses das próprias congregações. “Isso sai do universo de lutas, porque a gente não vê nessas pessoas nenhuma luta comunitária, por questões trabalhistas, pelas minorias”, diz.

Ana Paula Azzevedo, pré-candidata pelo PSOL em Ribeirão das Neves (RMBH), mulher negra e pastora, afirma que é assustador ver muitos dos “irmãos evangélicos” reproduzirem discursos conservadores. “O povo evangélico hoje no país é, em sua maioria, preto. É uma religião preta, mas que tem como lideranças homens brancos e mulheres brancas. Temos uma parcela conservadora, mas essa parcela é branca e rica, detentora de poder. O que essa parcela está tentando fazer com quem está na periferia, é que se tornem também conservadores em nome de Jesus. Isso a gente não pode permitir”, comenta.

Segundo levantamento deste ano do Datafolha, 31% dos brasileiros são evangélicos. Desse total, 58% são mulheres, 59% são pretos ou pardos e 48% ganham até dois salários mínimos. Em Belo Horizonte, em 2010 – data do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – a população evangélica chegava a quase 600 mil pessoas.

O que essa parcela está tentando fazer com quem está na periferia, é que se tornem também conservadores em nome de Jesus.

Estado laico

Em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o pré-candidato Zé Luiz Professor, do PT, se descreve como “cristão humanista” e também promete fazer frente na disputa sobre o que é ser evangélico na sociedade. Para ele, as bancadas cristãs nos legislativos não representam o conjunto dos evangélicos, mas é necessário também entender que o Estado é laico e que o parlamento não é um “gueto religioso” que pode ser utilizado para defender uma ideia única.

Os parlamentos devem ser abertos para toda a pluralidade, para a escuta das diferenças.

“Não temos que usar a religião como balizador da sociedade, o balizador da sociedade se chama Constituição Federal. Não somos um Estado teocrático. Os parlamentos devem ser abertos para toda a pluralidade, para a escuta das diferenças. Não podemos fazer um parlamento ‘só do que eu penso’. O que eu penso é muito pouco ante o tamanho das dificuldades que a gente vê na educação, na saúde, no transporte público”, comenta.

Articulação

Criada em 2016, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito reúne movimentos evangélicos progressistas e denuncia os ataques à democracia e aos direitos sociais. A Frente também, defende a laicidade do Estado, busca a transformação da cultura política brasileira e a construção de um projeto político popular que garanta vida abundante para todos.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Rodrigo Chagas e Elis Almeida


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