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domingo, setembro 27, 2020
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Claudio Katz revisita “teoria da dependência” e reflete sobre contexto do Sul global

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Surgida nos anos 1970, a chamada “teoria da dependência” ganhou notoriedade a partir de suas reflexões sobre o contexto de subordinação da economia de determinados países a outras economias do globo. Essa leitura do mundo, no entanto, viveu momentos de decadência e, agora, volta à tona por meio das reflexões de distintos intelectuais.

É o que faz, por exemplo, o argentino Claudio Katz na obra A teoria da dependência – 50 anos depois, recém-lançada pela editora Expressão Popular em parceria com o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Escolhida como destaque do Clube do Livro, a publicação é o terceiro volume da série “Sul Global”.

O novo trabalho de Katz se debruça sobre as origens dessa proposta teórica examinando as diferentes abordagens da escola, tida pelo autor como “muito original e frutífera no que se refere ao pensamento latino-americano”. Andre Gunder Frank, Fernando Henrique Cardoso e José Serra estão entre os nomes estudados, mas é na linha marxista que o intelectual finca suas análises, com foco em autores como Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos, considerados nomes de realce da teoria da dependência.

Com base nessa abordagem, o autor argentino destaca o subdesenvolvimento da América Latina por meio de questões como perdas de recursos e volumosas transferências de verbas para o exterior, que condicionam a subjugação da região a outras economias hegemônicas. A partir disso, Katz lembra a “dependência comercial, financeira e tecnológica” desse cenário, analisando o lugar “marginal” ocupado por esse trecho do continente em meio ao aprofundamento do neoliberalismo.

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“Nas últimas décadas, o neoliberalismo atualizou drasticamente esses pilares da teoria da dependência. Antes, a especialização em exportações básicas era grave, mas agora a ‘primarização’ [da economia] é avassaladora. Consolidou o predomínio das safras de exportação em detrimento do abastecimento local, fortaleceu a mineração a céu aberto, multiplicou as calamidades ambientais e intensificou a sucção de todas as variantes do óleo”, disse Katz, em entrevista concedida ao Brasil de Fato por e-mail.

Ele acrescenta que o contexto descrito vem piorando a situação do subdesenvolvimento local. “Esse perfil de atividades voltadas para a agricultura, a mineração e os combustíveis acentuou a vulnerabilidade da América Latina, diante da flutuação internacional dos preços das matérias-primas”, diz o autor.

Esse modelo de relações de força e poder em âmbito internacional incentiva as reflexões de Katz acerca de conceitos como os de “subimperialismo” e “superexploração”, com uma análise que vai do mundo árabe ao cenário latino. Países como Israel, Canadá e Austrália têm seus papéis centrais “na custódia da ordem global” ressaltados pelo autor, que examina a posição de diferentes economias na ordem do neoliberalismo.

O Brasil, como era de esperar, tem seu lugar nas análises do argentino, que menciona a manutenção de um “status de economia intermediária” pelo país por conta da dimensão e da relevância de seus mercados. Mas Katz pontua que o contexto de hoje é diferente daquele registrado, por exemplo, nos anos 1960 e 1970.

“Nas últimas décadas, reapareceu a especialização em exportações básicas junto a um retrocesso significativo na indústria. Essa regressão coexistia com o crescente endividamento do Estado. Os bancos e o agronegócio recuperaram a primazia sobre os industriais no bloco das classes dominantes”, assinala o livro.

Como fechamento, Katz deixa para o leitor alguns destaques, entre eles a lembrança de que a “ótica dependente influencia, atualmente, no balanço do ciclo progressista” experimentado por diferentes países, como Brasil, Argentina e Bolívia. O autor aponta que a “superação do subdesenvolvimento” não chegou a ser encarada como deveria e cita a relevância de questões como a redistribuição parcial da renda.

“[Ela] foi insuficiente para transformar a renda agrária ou petroleira em uma fonte de desenvolvimento igualitário. Mesmo assim, esses processos não estão encerrados e o balanço do que ocorreu é discutido no âmbito de disputas inconclusas”, alerta Katz.

Edição: Rodrigo Durão Coelho


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