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quarta-feira, outubro 28, 2020
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Opinião | A corrida pela vacina no Brasil e o tempo da ciência

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A crise sanitária mundial provocada pela pandemia de covid-19 impõe um grande desafio à ciência, ao mesmo tempo que escancara como ela deve ser uma prioridade. Só no Brasil, são mais de 3,6 milhões de casos de covid-19 e mais de 119 mil pessoas mortas, segundo dados oficiais.

Apesar da crescente desmobilização do isolamento social, retorno gradativo do comércio e discussão do retorno de aulas presenciais, o problema parece estar longe do fim. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o biólogo Tedros Adhanom, anunciou no sábado (22) que a pandemia deve durar ainda pelo menos dois anos.

Jair Bolsonaro tem negligenciado a pandemia em todas as dimensões

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Por outro lado, a imprensa apresenta semanalmente uma nova esperança com cada passo dado no desenvolvimento de vacinas, que tem recebido os principais esforços de cientistas, instituições e governos.

A corrida pela vacina envolve pesquisas do mundo inteiro, o que tem acelerado muitos processos que em condições normais são muito mais lentos. Apesar disso, o tempo segue sendo um fator limitante por algumas razões. A primeira é o tempo que o nosso organismo demora para reagir, o que faz cada etapa de testes levar alguns meses para ser concluída.

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Outro fator que faz a ciência correr contra o tempo é o próprio processo de desenvolvimento de uma vacina. Este processo começa com estudos em laboratório utilizando células cultivadas e cobaias para avaliar se um composto tem ou não efeito sobre o vírus. Depois disso começam as etapas de teste em voluntários, os chamados testes clínicos.

Na primeira fase são feitos testes de segurança, com um grupo restrito de voluntários. Nessa etapa os cientistas testam se a vacina é segura para o nosso corpo. A  segunda etapa são feitos testes de eficácia e efeitos colaterais, com um grupo de voluntários maior, que permite que os pesquisadores observem esses efeitos em diferentes grupos por idade e fatores de risco, por exemplo.

A fase três testa a eficácia, a efetividade e segurança da vacina com um grupo ainda maior de pessoas. Ainda depois que uma vacina passa por todo esse processo é preciso produzir quantidade suficiente para uma cobertura vacinal satisfatória, e seus efeitos e resultados seguem sendo monitorados pelos pesquisadores.

Na ciência todo esse processo é conduzido com responsabilidade a partir de tentativas, erros, hipóteses, ajustes, fracassos e finalmente acertos.

A cada novo resultado positivo anunciado nossa esperança de sucesso aumenta, o que é natural e coerente. No entanto, o tempo da ciência é bastante diferente do tempo da notícia. Cada fase avançada é um passo dado e tem valor importante para a comunidade científica, mas ainda não temos respostas seguras até que todos os passos sejam dados e infelizmente não sabemos ainda sequer quantos passos precisamos para chegar ao sucesso.

Não se trata de pessimismo ou otimismo e sim de respeitar o tempo que a ciência precisa para encontrar respostas. Não vai existir um só estudo cujo resultado seja a vacina, isso é feito em conjunto por pesquisadores que estudam arduamente cada detalhe da estrutura do vírus, de como ele infecta o nosso corpo e de como podemos agir. A ciência é coletiva, complexa e responsável com cada etapa do processo. 

Noticiários dão a entender que a vacina tem data para sair, o que não é possível mensurar cientificamente

Em situações de emergência, como é o caso da pandemia, a imprensa tem o papel fundamental de informar as pessoas de forma segura. Os noticiários estão repletos de notícias que dão a entender que a vacina tem data para sair, o que não é possível mensurar cientificamente. É possível prever quando teremos resultados, mas não se serão positivos.

Discursos de chefes de Estado e autoridades de saúde não podem contaminar a informação que chega às pessoas. Muitos de nós precisam com urgência retomar o trabalho para nossa própria sobrevivência, todos nós queremos voltar a abraçar nossos familiares, encontrar nossos amigos, ocupar as ruas e curtir o carnaval em fevereiro.

Por isso, a tendência é que a gente se envolva a qualquer possibilidade de retomada, e datas determinadas por previsões de resultados e discursos provocam impacto sobre as expectativas e aumentam o risco de desmobilização com as medidas realmente eficazes.

Vacinas em Teste

Algumas vacinas já estão na terceira fase, os testes de eficácia, efetividade e segurança. Uma delas é desenvolvida no Reino Unido, conhecida como a vacina de Oxford, e tem apresentado resultados promissores até aqui.

Graças a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um dos principais institutos de pesquisa em saúde do país, o Brasil se tornou o primeiro país além do Reino Unido a produzir a vacina de Oxford e tem colaborado nos testes clínicos. Antes mesmo dos resultados finais a Fiocruz tem alinhado junto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) detalhes da distribuição da vacina, a fim de garantir que ela aconteça de forma gratuita pelo Programa Nacional de Vacinação.

O Instituto Butantan, outro importante órgão público de pesquisa em saúde no Brasil, tem produzido a vacina Coronavac, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. Esta vacina também já avançou para a terceira fase e já vem sendo testada no Brasil. A China tem mais duas vacinas nesta fase de testes em Wuhan e Pequim.

A Rússia registrou no início de agosto sua primeira vacina, a Sputnik V. A estratégia da vacina russa é bastante conhecida e validada pela ciência e consiste basicamente em usar outros vírus (adenovírus humanos) para carregar uma parte do material genético do coronavírus que seja suficiente para o nosso sistema imune desenvolver uma resposta.

É possível prever quando teremos resultados, mas não se serão positivos

No entanto, os testes realizados para a Sputnik V não foram publicados em revistas científicas ou divulgados com transparência. O que se tem até o momento são anúncios e promessas de Putin e autoridades de saúde russas.

O Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), empresa pública vinculada à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Governo do Paraná, assinou um memorando de entendimento junto a Rússia para a adquirir e produzir a vacina no Brasil. O objetivo é realizar a fase três de testes no estado, no entanto, o Tecpar condicionou o acordo ao acesso aos dados sobre testes de eficiência e imunização.

Em Cuba, o presidente Miguel Díaz-Canel defende o desenvolvimento de uma vacina no país ainda que outras estejam sendo desenvolvidas pelo mundo, o que garante sua soberania. As pesquisas de quatro vacinas têm avançado em Cuba, sendo a mais promissora a chamada Soberana 1, mas nenhuma delas chegou ainda à fase três.

No Brasil, o que vemos até aqui é o esforço de órgãos públicos envolvidos em pesquisas de saúde para firmar parcerias e acordos com instituições internacionais que tenham obtido resultados promissores. Esse ponto reforça a ausência de ações do governo federal em buscar alternativas para combate à covid-19.

Para além de vacinas, o presidente Jair Bolsonaro tem negligenciado a pandemia em todas as dimensões, desde a transparência de dados oficiais sobre contágio e mortes, o direcionamento de medidas de isolamento e redução de contágio, que desde o começo da pandemia está a cargo de estados e municípios, até as medidas de assistência financeira e sanitária à população mais vulnerável.

Sem um plano nacional consistente de combate ao coronavírus, o que tem ajudado o povo a sobreviver é a solidariedade

Cabe lembrar que o auxílio emergencial de R$600,00 foi conquistado com luta e mobilização popular e pressão do Poder Legislativo federal, que resistiu a proposta de Guedes e Bolsonaro de pagar R$200,00, valor correspondente a menos de um quinto do salário mínimo. Desde 15 de maio, o país não tem sequer um ministro da saúde. O general do Exército, Eduardo Pazuello, assumiu interinamente o comando do ministério, sem nenhum conhecimento técnico para tal.

Sem o desenvolvimento de um plano nacional consistente de combate ao coronavírus, o que tem ajudado o povo o brasileiro a sobreviver é a solidariedade. Abandonado pelo poder público, sobretudo em instância federal, os brasileiros têm contado principalmente com as organizações populares e movimentos sociais que atuam na distribuição de cestas básicas e produtos de higiene.

O esforço das instituições públicas de pesquisa, uma nova forma de comunicar e entender a ciência e a organização popular solidária do povo brasileiro são os pilares para o Brasil vencer a covid-19.

Rúbia Praxedes é pós-graduanda em comunicação pública da ciência pela UFMG, bióloga, mestre em Biologia de Vertebrados pela PUC Minas e militante da Consulta Popular.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Elis Almeida


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